sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

O EXTERMINADOR (1980)


Não foram poucos os "filmes de vigilante" surgidos com o sucesso de "Desejo de Matar" em 1974. O clássico estrelado por Charles Bronson originou imitações e cópias xerox em praticamente todo o mundo, da Itália (onde Enzo G. Castellari dirigiu o ótimo "O Vingador Anônimo", com Franco Nero no papel principal) à Turquia (país responsável por "Cellat", de Memduh Ün, que tem no elenco o Bronson turco Serdar Gökhan), e passando inclusive pelo Brasil (com "Horas Fatais - Cabeças Trocadas", dirigido e estrelado por Francisco Cavalcanti).

Nos Estados Unidos também apareceram vários justiceiros e vigilantes urbanos, e, entre todos eles, é digno de destaque o violento personagem de um filme de 1980, escrito e dirigido por James Glickenhaus. Trata-se de O EXTERMINADOR.

Se "Desejo de Matar" levava um tempão mostrando as motivações do personagem de Bronson e sua lenta transformação de homem pacato em justiceiro solitário, O EXTERMINADOR é enxuto e não gasta nem 10 minutos para mostrar seu herói (ou seria anti-herói?) saindo às ruas para encher bandidos de pipocos - afinal, o título do filme não faria sentido se o personagem principal não fosse mostrado como uma violenta máquina de matar, correto?


Mas o melhor desta produção assumidamente B ainda é o início, numa das representações mais explosivas e brutais da Guerra do Vietnã que já vi em película (e olha que também estou considerando os grandes clássicos, tipo "Apocalypse Now" e "O Franco-Atirador").

É ali, em meio a tiros, explosões, sujeira e torturas, que conhecemos nossos dois personagens centrais: John Eastland (o canastrão Robert Ginty, astro de vários filmes B de ação dos anos 80) e seu amigo Michael Jefferson (Steve James, que fez a série "American Ninja" e morreu em 1993, vítima de câncer no pâncreas). Eles são uma dupla de soldados americanos aprisionados pelos sanguinários vietcongues.

O Vietnã nunca foi tão violento


Os vilões realizam uma realista cena de decapitação (para torná-la tão real, técnicos da equipe do mestre Stan Winston construíram um boneco todo articulado, anos antes de tornar-se convencional o uso de CGI). É a gota d'água: Michael consegue se soltar e acaba com os algozes.

Ao libertar o amigo John, percebe-se pela primeira vez que a extrema violência do conflito deixou o sujeito meio fora da casinha: para vingar-se dos abusos sofridos, ele atira na cabeça de um vietcongue ferido e desarmado!

Um salto no tempo e o filme nos transporta diretamente para a Nova York dos anos 80, que não parece muito diferente do violento Vietnã mostrado momentos antes - somente tem menos explosões. Veteranos de guerra, John e Michael agora trabalham como estivadores num depósito que fica no bairro pobre do Bronx, um lugar bem pouco interessante para se morar, diga-se de passagem.


Certo dia, Michael flagra uns folgados saqueando cerveja de um dos depósitos onde trabalha e dá uma lição neles, salvando, mais uma vez, a vida do parceiro John, que tinha se tornado refém dos marginais.

Poucas horas depois, entretanto, Michael, que tem esposa e filhos, é brutalmente atacado pelos mesmos marginais, sendo apunhalado e surrado. Resultado: acaba no hospital, paralítico e sem chances de caminhar novamente.

John, que descontando a violenta reação no Vietnã ainda era mostrado como um sujeito pacato, fica completamente transtornado com o episódio.


E o filme mostra sua reação sem muito lero-lero: num momento, ele está encontrando a esposa de Michael e lhe contando sobre o que aconteceu ao marido; um corte brusco depois e, já na cena seguinte, John aparece transformado num justiceiro sedento de sangue e morte, com um bandido pé-de-chinelo amarrado à sua frente.

Ele assusta o sujeito usando um lança-chamas (!!!) até descobrir onde estão os bandidos que agrediram seu amigo. Então, armado com um fuzil M-16 (!!!), John ataca o covil dos bastardos, exterminando-os brutalmente como se estivesse nas selvas do Vietnã.

Para arrematar o serviço, deixa o chefe do bando, ainda meio vivo, para ser devorado pelos ratos no porão de um velho armazém!


No dia seguinte, John volta ao hospital e conta ao amigo o que fez, dizendo que, na hora, não conseguia distinguir o "certo do errado". Também diz ao inválido Michael que descobriu uma forma de cuidar da esposa e filhos do amigo, para que não fiquem financeiramente desamparados.

A solução do problema financeiro envolve roubar o dinheiro sujo de um gângster do mercado dos açougues, chamado Gino Pontivini.

Numa cena que é um verdadeiro clássico do mau gosto, depois de saquear o cofre do mafioso, o exterminador dá cabo do bandidão atirando-o dentro de um moedor de carne, e a câmera cruel de Glickenhaus não poupa o espectador nem mesmo da carne moída e ensangüentada saindo da máquina!!!


O "Exterminador" podia até parar a matança de bandidos por aí, mas acaba pegando gosto pela coisa e se transforma num anti-herói tão sanguinário quanto os bandidos que combate e mata.

Para justificar seus atos, John deixa cartas à polícia dizendo que está fazendo o que a lei deveria fazer. E sai pelas ruas da cidade, à noite, combatendo os mais sacanas e bastardos vilões do cinema classe B.

Lá pelas tantas, por exemplo, nosso herói vai parar na chamada "Casa de Frangos", que nada mais é do que um local onde ricaços pervertidos vão para fazer sexo com crianças (!!!). Ali, John chega a enfrentar um rico senador (!!!) cuja tara é torturar meninos de nove anos com um ferro de solda!!!


O EXTERMINADOR acerta ao compor um personagem principal tão doentio e pouco heróico quanto o Paul Kersey do "Desejo de Matar" original: tanto o Exterminador quanto o Vigilante interpretado por Bronson parecem mais desequilibrados com sede de sangue do que heróis.

Sem dó nem piedade, o "Exterminador" atira em pessoas desarmadas, imobiliza um cafetão para poder queimá-lo vivo e chega a fabricar balas "dundum" (recheadas com mercúrio) para provocar ainda mais estrago nos seus desafetos.

Talvez por isso, para atenuar a crueldade e frieza do protagonista, o roteiro crie um outro "personagem principal" que rivaliza com John pelo papel de "herói" da trama, um policial pé-de-chinelo chamado James Dalton (interpretado por Christopher George, outro canastrão, sempre lembrado por sua participação em "Pavor na Cidade dos Zumbis", de Lucio Fulci), e que caça o justiceiro pelas ruas da metrópole para tentar encerrar sua carreira de crimes.


Ironicamente, o duelo final do "Exterminador" não será com bandidos, como nos filmes de Bronson, mas com Dalton e um grupo de agentes da CIA, enviados pela alta cúpula do governo para eliminar o vigilante e impedir uma grande polêmica política - afinal, o governo que pretende se reeleger havia prometido acabar com a alta criminalidade da cidade!

Analisando por um lado mais crítico, O EXTERMINADOR está cheio de falhas: o roteiro é muito fragmentado, a caracterização dos personagens é nula, a edição não raras vezes é sofrível, e algumas interpretações são constrangedoras. Diversos desses defeitos são característicos da obra do diretor Glickenhaus, que prefere fazer ação violenta sem muito compromisso com a lógica.

Além disso, tirando o fantástico início no Vietnã, a direção das cenas de ação em geral é canhestra, principalmente uma rápida perseguição automobilística onde John persegue, numa veloz motocicleta, o carro de um grupo de assaltantes que roubou uma pobre velhinha - perseguição chinfrim e mal-editada, que destoa completamente do resto do filme.


Por outro lado, O EXTERMINADOR acerta justamente na coragem de enfocar seu herói como um sujeito frio, que devolve aos vilões na mesma moeda e sem medir a truculência.

Se compararmos John Eastland com a recente adaptação do Justiceiro dos quadrinhos (aquela com Thomas Jane e John Travolta), o anti-herói parece um coelhinho assustado.

E o melhor: ao contrário dos filmes politicamente corretos de hoje, John não poupa os criminosos que encontra pela frente, nem mesmo aqueles que o ajudam de uma forma ou de outra dando-lhe informações; todos vão para o saco, sem exceção! E ainda tem diálogos antológicos, como este:

- That guy, he was just a nigger!
- That nigger was my best friend, you motherfucker!



O EXTERMINADOR conta ainda com uma pequena (e dispensável) participação de Samantha Eggar como uma médica apaixonada pelo policial Dalton. As cenas "românticas" entre ambos não servem para nada e ainda esfriam a ação.

Dalton, por sinal, protagoniza um momento que é o extremo da bagaceirice, quando tenta assar uma salsicha no seu escritório usando a eletricidade da tomada!

Já o final é bem fora do convencional, mesmo que deixe as portas escancaradas para a inevitável seqüência, realizada em 1984 e dirigida pelo produtor do original, Mark Buntzman. Ao contrário do clima mais realista do primeiro filme, Buntzman transformou o herói numa máquina de matar em "Exterminador 2", que já tem aquela cara de exagero da década de 80 e uma contagem de cadáveres próxima à do clássico "Desejo de Matar 3".


No Brasil, O EXTERMINADOR foi lançado há muitos anos, e apenas em VHS, pela FJ Lucas. A cópia é muito ruim, bastante escura e com legendas atrasadas em relação aos diálogos. Nos EUA, já existe até uma "director´s cut" em DVD, com três minutos de cenas a mais. Em alguns países, a cena que mostra, didaticamente, o herói produzindo as "balas dundum" foi cortada, justamente para não ficar ensinando a técnica.

Para quem mora em grandes cidades, mais violentas, e convive diariamente com o medo de crimes e assaltos, O EXTERMINADOR é uma daquelas fábulas sobre como um homem sozinho pode fazer a diferença e enfrentar a bandidagem sem depender dos sistemas policial e judiciário - numa assustadora apologia à violência e à resposta armada que voltou à moda em tempos de "Tropa de Elite", "Chamas da Vingança", "Busca Implacável" e outros filmes contemporâneos de justiça com as próprias mãos.

E pelo menos no cinema isso funciona com eficiência. Bem que poderíamos ter uns "Exterminadores" à solta para limpar também as nossas cidades.

Trailer de O EXTERMINADOR



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The Exterminator (1980, EUA)
Direção: James Glickenhaus
Elenco: Robert Ginty, Christopher George,
Samantha Eggar, Steve James, David Lipman,
George Cheung e Irwin Keyes.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

SEXO ERÓTICO NA ILHA DO GAVIÃO (1986)


Nos anos 80, tentando combater a invasão dos filmes pornográficos made in USA, muitos diretores "populares" do cinema nacional acabaram enveredando para o X-Rated, com resultados que vão do lamentável ao muito engraçado (mas quase nunca propriamente excitantes). Alguns enfrentavam tanta dificuldade (e falta de grana) para produzir que encontraram um "jeitinho brasileiro" para faturar uns trocos: relançar seus filmes "normais" com cenas de sexo explícito enxertadas na edição!

Era rápido, fácil e, principalmente, barato, e o público que se dane!

Não foram poucos os que adotaram esta tática picareta: J. Marreco relançou "A Mulher, A Serpente e a Flor" (1983), um drama sério, adicionando cenas de sexo explícito que ele gravou (direto da frente da tela da TV!!!) de um filme pornô americano; Levi Salgado transformou seu "Punks - Os Filhos da Noite" (1982) em "Sexo Selvagem dos Filhos da Noite" (1987), fazendo com que atores "sérios", como Danton Jardim e Lady Francisco, ficassem lado a lado com meia-noves e trepadas diversas; o mesmo fez Nilton Nascimento em "Perdido em Sodoma" (1982), que, após os enxertos, transformou-se num filme pornô... estrelado por José Lewgoy!!!


Foi também nesta época, em 1986, que o paulista Rubens da Silva Prado, um dos grandes nomes do chamado "feijoada-western" (apelido carinhoso dos filmes de bangue-bangue produzidos no Brasil), maculou uma de suas obras, transformando o que era um sangrento faroeste rural num festival de pornografia explícita. Estamos falando do "clássico" da Boca do Lixo SEXO ERÓTICO NA ILHA DO GAVIÃO - e não me pergunte que diabos querem dizer com "Sexo Erótico"!

Tudo que Prado fez foi reaproveitar os velhos e desgastados negativos do seu filme de 1981 "A Febre do Sexo" (que, apesar do título pornográfico, é um western com muita ação e nenhum sexo explícito) e filmar uns 10 minutos, no máximo, de cenas de fodas explícitas, com atores "pau pra toda obra" (literalmente) da Boca do Lixo e umas barangas abaixo da crítica. O resultado ficou tão trash que SEXO ERÓTICO NA ILHA DO GAVIÃO acabou se transformando num bizarro e sangrento western-pornô meio sem pé nem cabeça. Ou seja, um programa obrigatório para qualquer fã de cinema nacional, digamos, alternativo... E, claro, mais um autêntico FILME PARA DOIDOS!

Os créditos iniciais se desenrolam sobre fotos recortadas (e desbotadas) de revistas de sacanagem. Em seguida, surgem as cenas originais de "A Febre do Sexo": o lenhador e dublê de pistoleiro Gregório (interpretado pelo próprio Rubens Prado, com o pseudônimo "Alex Prado") está derrubando uma árvore a machadadas quando surge Ana (Thiana Perkins), uma garota da vila, com as roupas em farrapos e à beira da morte. Ela avisa o herói que um grupo de bandoleiros invadiu o povoado, matou todos os homens e crianças, e seqüestrou as mulheres, entre elas Maria (Helena Volpi), a esposa de Gregório.


Não dá 10 segundos para que o lenhador deixe o cadáver desfalecido de Anita para trás e, armado de uma espingarda e um facão, passe o restante do filme desbravando uma bonita paisagem rural, enfrentando pistoleiros em sangrentos duelos e resgatando moças seminuas que, eventualmente, acabam morrendo em novos confrontos. Logo, Gregório descobre que por trás de tudo está um fanático religioso chamado Gavião (Paul Morrison), que usa as moças peladas em seu garimpo clandestino! Até enfrentar o vilão e salvar Maria, nosso herói mata, direta ou indiretamente, umas 30 pessoas!

Mas onde entra o "sexo erótico" nessa história? Aí é que está, amiguinhos: a trama e as cenas acima são todas de "A Febre do Sexo". Para transformar o antigo western em pornô, Prado gravou umas cinco novas cenas de trepadas, praticamente seis anos depois do original, com atores que nem ao menos participavam do outro filme, como Claudette Joubert, Oásis Minitti, Oswaldo Cirillo e Sílvio Júnior. Pior: o próprio Rubens Prado aparece em algumas delas, seis anos depois, com uma camisa diferente, com o rosto diferente, mais gordo e carregando um outro modelo de espingarda! Até a dublagem do personagem é diferente!!!

O resultado destes enxertos é simplesmente hilariante: casais aparecem transando do nada e desaparecem repentinamente sem chegar a fazer parte da trama principal. Em um momento, o Gregório de "A Febre do Sexo" entra na floresta com a camisa manchada de sangue de um ferimento e, no take seguinte, vemos o "Gregório enxertado" caminhando com a camisa limpinha pelo que parece ser o quintal da casa de alguém, apenas para participar - como testemunha ocular - de uma cena de trepada!


O pior é que se "A Febre do Sexo" era um western sério e violento, os enxertos transformam SEXO ERÓTICO NA ILHA DO GAVIÃO numa engraçadíssima comédia involuntária. Numa das cenas pornôs, por exemplo, Osvaldo Cirillo (que é a cara do Freddy Mercury!) entra pela "porta de trás" de uma moça que lavava roupa, apenas para mais tarde descobrir que se trata de um travecão (Patrícia Petri, de "Alucinações Sexuais de um Macaco"); mas não se faz de rogado e cai de boca no traveco!

Em outra cena enxertada, um negro magrela pula de uma árvore e começa a "estuprar" uma megera, que protesta apenas por alguns segundos e logo entra no clima da brincadeira. Até que aparece Gregório (versão enxerto) e enfia o cano da espingarda no fiofó do estuprador, que ainda protesta: "Ô meu, deixa pelo menos eu dar uma gozadinha!".


A coisa é tão apelativa que tem até "enxerto no enxerto": numa cena de sexo grupal envolvendo uma das musas do pornô nacional, Claudette Joubert, e Heitor Gaiotti e Sílvio Júnior, percebe-se claramente que a dupla penetração foi retirada de algum outro filme, e que os dois atores estão apenas se esfregando na moça - até que surge novamente o estraga-prazeres Gregório (versão enxerto) e mata ambos com tiros de espingarda!

Antes de fazer picaretagens como esta, Rubens Prado foi um dos principais incentivadores do western brasileiro, tendo dirigido filmes sérios dentro desta proposta, como "Sangue em Santa Maria" (1971), "Gregório Volta Para Matar" (1974) e "A Vingança de Chico Mineiro" (1979). Este SEXO ERÓTICO NA ILHA DO GAVIÃO já é um canto de cisne do cineasta, que, como muitos outros diretores brasileiros, viu-se obrigado a investir na pornografia para conseguir sobreviver.

Fica claro, neste seu western versão pornô, que o diretor atira para todos os lados (literalmente), tentando atrair o povão pelo sensacionalismo. Isso explica a quantidade de mulher pelada, estupros e até homossexualismo nas novas cenas explícitas editadas.


Para quem não é muito chegado nestas sacanagens da Boca do Lixo, ainda assim SEXO ERÓTICO NA ILHA DO GAVIÃO vale como resgate de toda a ação e violência de "A Febre do Sexo", que nunca foi comercialmente lançado nas videolocadoras (enquanto SEXO ERÓTICO... foi). Estas cenas antigas trazem alguns momentos bem legais, como um sangrento tiroteio num rio, com direito a balaços na cabeça e no pescoço! O final, em que Gregório distribuiu faconaços a rodo enquanto invade o navio do Gavião, também é um festival de violência gratuita.


Mas prevalece mesmo o "clima trash", principalmente no visual de Gregório, que é uma atração à parte: ele passa o tempo todo usando um daqueles chapeuzinhos de pele com cauda atrás, estilo Escoteiros Mirins! E os diálogos rebuscados ("Tenho o corpo todo marcado pelas batalhas travadas pelo caminho") não ajudam em nada; pelo contrário, são hilariantes!

Vale, então, conferir de qualquer jeito, nem que seja avançando as cenas de sexo explícito com o controle remoto. Ah, se os filmes nacionais "sérios" de hoje fossem tão divertidos quanto estas preciosidades da Boca do Lixo...

PS: Deixo aqui um agradecimento especial ao Matheus Trunk, da revista virtual Zingu, e ao Rodrigo Pereira, do blog Filmes que Só Eu Vi, que me deram preciosas informações sobre "A Febre do Sexo" e me ajudaram a identificar os enxertos nesta versão pornô.

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Sexo Erótico na Ilha do Gavião (1986, Brasil)
Direção: Rubens da Silva Prado
Elenco: Alex Prado (Rubens Prado), Claudette
Joubert, Oásis Minitti, Sílvio Júnior,
Helena Volpi e Paul Morrison.

sábado, 20 de dezembro de 2008

CANNONBALL (1976)


Você sabe que CANNONBALL é um autêntico FILME PARA DOIDOS, além de um daqueles "clássicos cult" de todos os tempos, só pela cena em que um afrescalhado chefão da máfia (feito pelo próprio diretor do filme, Paul Bartel) come um balde de frango frito e conversa com outros dois mafiosos, interpretados por, veja você, Martin Scorsese (!!!) e Sylvester Stallone (!!!), ambos em participação especial de 30 segundos! É mole ou quer mais?

Se quer mais, então saiba que CANNONBALL é estrelado por uma respeitável galeria de atores conhecidos, como os irmãos Carradine, Gerrit Graham, Mary Woronov e James Keach (irmão do Stacy), e tem mais um punhado de divertidas participações-relâmpago de gente como Dick Miller, os produtores Roger Corman e Don Simpson e os cineastas Joe Dante ("Gremlins"), Carl Gottlieb ("Amazonas na Lua"), Allan Arkush ("Rock'n'Roll High School") e Jonathan Kaplan ("Acusados").


Na época (anos 70), todos eles - inclusive o jovem Stallone - integravam a turma da New World Pictures, a produtora de Roger Corman, e acabaram entrando nisso que se transformou numa bela brincadeira de cinéfilo. Era uma época, também, em que filmes com carros em alta velocidade estavam na moda, apesar de a garotada de hoje achar que bobagens tipo "Velozes e Furiosos" (argh!) são novidade.

CANNONBALL (que no Brasil ganhou o desnecessário subtítulo "A Corrida do Século") faz parte de um ciclo de filmes de perseguições automobilísticas produzido por Roger Corman. Entre as obras, se destacam o cult "Ano 2000 - Corrida da Morte" (1975, também dirigido por Paul Bartel), "Eat My Dust" (1976) e "Grand Theft Auto" (1977, ambos dirigidos pelo hoje famoso Ron Howard).

Este ciclo foi recentemente homenageado por Quentin Tarantino em "À Prova de Morte", como parte do mal-sucedido projeto "Grindhouse", mas ele não chegou nem perto do clima dos filmes antigos.


E foi em 76, logo após o sucesso de "Ano 2000 - Corrida da Morte", que o mesmo Bartel escreveu o roteiro (com Don Simpson) sobre uma famosa corrida ilegal chamada Cannonball.

Com o valor de alguns galões de gasolina e David Carradine, o astro de seu filme anterior, ele rodou esta pequena gema - que alguns desavisados sites informam ser continuação de "Ano 2000...", quando os dois filmes não têm qualquer relação. Curiosamente, no mesmo ano de 76, foi lançado outro filme com o mesmo tema, a comédia "The Gunball Rally".


Tanto CANNONBALL quanto "The Gunball Rally" são inspirados numa famosa corrida fora-da-lei real, criada pelos amigos e pilotos Brock Yates e Steve Smith em 1971, e batizada "Cannonball Baker Sea-To-Shining-Sea Memorial Trophy Dash".

Era, ao mesmo tempo, uma homenagem e um protesto ao sistema rodoviário norte-americano: homenagem porque celebrava a boa condição das estradas, e protesto porque fazia escárnio do reduzido limite de velocidade nas mesmas estradas. O objetivo da tal corrida era pilotar qualquer veículo de quatro rodas de Nova York até Los Angeles, driblando a polícia e outros competidores.

A mesma competição deu origem à famosa comédia "The Cannonball Run" (no Brasil, "Quem Não Corre, Voa!"), em 1981.


E é a tal competição ilegal a verdadeira protagonista deste filme do Bartel: os demais personagens são apenas caricaturas, uma espécie de versão adulta e violenta do desenho "Corrida Maluca", e a graça de CANNONBALL é ver pilotos e veículos se estrepando em fantásticas cenas em alta velocidade, realizadas por dublês, anos antes da computação gráfica tornar fichinha a produção desse tipo de malabarismos.

O nome da corrida ilegal do filme é "Trans-America Grand Prix", com trajeto entre Los Angeles, California e Nova York. O "Cannonball" do título é o apelido do piloto interpretado por David Carradine, Coy "Bala de Canhão" Buckman, ex-presidiário em liberdade condicional que tenta retomar sua carreira no automobilismo justamente vencendo o tal torneio, que dá uma bolada em dinheiro como prêmio.


Junto com Coy, competem outros malucos em máquinas envenenadas, usando de trapaças, golpes sujos e violência para eliminar os rivais pelo caminho e faturar o prêmio. Entre os competidores estão o malvado Cade Redman (Bill McKinney), que pilota acompanhado de um astro da música country (Gerrit Graham, de "O Fantasma do Paraíso"); uma van com três gostosas, conduzida pela estrelinha cult Mary Woronov (que, na vida real, nem sabia dirigir); um alemão arrogante que dirige falando sozinho (James Keach), e até um simpático casal de adolescentes apaixonados (Robert Carradine, irmão de David, e Belinda Balaski, atriz de estimação do Joe Dante).

Num toque de gênio, Coy disputa a corrida auxiliado pelo seu mecânico, Zippo Friedman (Archie Hahn), que pilota um outro carro, idêntico ao seu, para confundir os rivais!


É claro que, à medida que os quilômetros são superados e a rivalidade aumenta, CANNONBALL descamba para incríveis acidentes e explosões. Só duas destas cenas já valem o filme todo: Coy acelerando seu carro para saltar o trecho ainda não-construído de um viaduto (cena que se tornaria clichê do "cinema de velocidade", e aqui realizada com maestria), e um incrível engavetamento envolvendo dezenas de veículos, numa sucessão de batidas e explosões digna do final de "Os Irmãos Cara-de-Pau", de John Landis!

Como os carros e cenas em alta velocidade (filmadas e editadas com maestria) são as verdadeiras atrações, e os atores e participações especiais acabam ficando em segundo plano, torna-se até desnecessário tentar acompanhar a história, que, como no caso de "Ano 2000 - Corrida da Morte", tem vários toques de humor, principalmente aqueles que envolvem os criativos truques usados pelos pilotos para tirar seus rivais da jogada ou para fugir da polícia - destaque para as garotas da van, que seduzem dois policiais para não serem presas por dirigir em alta velocidade! O trailer é uma aula de como vender um filme de ação.


No fim, o espectador se pega até torcendo para que o seu piloto preferido cruze antes a linha de chegada (eu fiz o mesmo em "Quem Não Corre, Voa!"). E é este mosaico de personagens excêntricos e suas rivalidades que transformam CANNONBALL num divertido e barulhento filme de ação à moda antiga. Nem que seja só para curtir as participações especiais.

Resumindo: diversão pura e simples para pessoas de bom gosto. Pena que, ao contrário de "Quem Não Corre, Voa!", que teve duas seqüências, CANNONBALL ficou apenas neste primeiro filme. Seria divertido ver Coy "Cannonball" Buckman encarar outras edições do "Trans-America Grand Prix", disputando quilômetros com outros pilotos ainda mais malucos.

Só espero que o Paul W.S. Anderson, que maculou "Ano 2000 - Corrida da Morte", não invente de refilmar este também.

Trailer de CANNONBALL



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Cannonball (1976, EUA)
Direção: Paul Bartel
Elenco: David Carradine, Bill McKinnney, Veronica
Hamel, Dick Miller, Paul Bartel, Gerrit Graham,
Robert Carradine e Belinda Balaski.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

NO CORAÇÃO DO PERIGO (1986)


Depois de duas resenhas de filmes mais amenos, chegou a hora de voltar ao que interessa, amiguinhos. Ou seja: filmes de ação casca-grossa, daqueles com tanto tiro e explosão que, depois de ver, dá vontade de pegar uma metralhadora e sair pelas ruas declarando guerra contra o mundo inteiro. Um belo exemplar desse estilo é o visceral NO CORAÇÃO DO PERIGO (1986), mistura explosiva de ação e guerra feita por John Woo antes de ir para Hollywood e virar florzinha.

Originalmente chamado "Ying Xiong Wu Lei", e nos EUA "Heroes Shed No Tears" (Os Heróis Não Derramam Lágrimas), NO CORAÇÃO DO PERIGO representou uma mudança radical no "estilo Woo" de cinema. Até então, ele era conhecido como diretor "pau-pra-toda-obra" da Golden Harvest, contratado para dirigir filmes de artes marciais (dois bons saíram no Brasil como "A Jugular Blindada" e "A Lâmina Fatal") e até comédias de horror ("A Farra do Demônio", de 1981).

Finalmente, entre 84 e 85, o cineasta foi para a Tailândia rodar este que é seu primeiro grande filme de ação, com sangrentos e exagerados tiroteios, cenas estilizadas de ação em câmera lenta e muito sangue jorrando, lançando uma forma toda pessoal e barulhenta de fazer filmes que atingiria a perfeição nos clássicos "Fervura Máxima" e "The Killer", ambos dos anos 90.


Mas, como todo diretor à frente do seu tempo, Woo teve que enfrentar a cabeça fechada dos seus patrões da Golden Harvest, que não gostaram do festival de tiros e explosões sem propósito de NO CORAÇÃO DO PERIGO e deixaram o filme mofando na gaveta, sem lançamento comercial. Ele só chegou aos cinemas em 1986, quando o diretor alcançou fama internacional justamente através de um filme com tiroteios violentos e estilizados, o ótimo "Alvo Duplo" (A Better Tomorrow/Ying Hung Boon Sik), com Chow Yun-Fat, que saiu naquele ano. Com Woo transformado em "nome quente" dos filmes de ação, finalmente seu épico de guerra viu a luz do dia.

O mais interessante de NO CORAÇÃO DO PERIGO é que ele já traz todos os elementos que o diretor aperfeiçoaria nos filmes seguintes (a relação amizade-honra, onde vale a pena se sacrificar por amigos ou pela "coisa certa"; os vilões obcecados e movidos pela fúria cega; os amigos que tombam pelo caminho em cenas dramáticas em câmera lenta; atiradores usando uma arma em cada mão; um herói enfrentando um exército, etc etc etc...).

Mas tudo isso, aqui, ainda é feito de maneira crua, caótica, barulhenta, sem aquelas acrobacias e coreografias perfeitas que apareceriam nos filmes seguintes. Justamente por isso, talvez este seja o trabalho mais furioso do diretor, antes de virar moda e começar a enfeitar as obras posteriores - e sem astros de Hollywood, como Tom Cruise e Ben Affleck, ou a MPAA para encher o saco.

Eu vi o filme pela primeira vez nos anos 90. Woo estava em alta e era "moderninho" conhecer seu cinema, já que a nossa imprensa, sempre atrasada (considerando que o cara já fazia filmes há duas décadas), começou uma babação de ovo descarada à "coreografia da matança" do cinema do diretor - com muitos pseudo-críticos e pseudo-jornalistas esquecendo que Sam Peckinpah e Enzo G. Castellari já faziam mais ou menos a mesma coisa bem antes de John Woo. Mas enfim, o homem era febre, só se falava nele e era praticamente obrigatório conhecer seus filmes para não ficar por fora.


Existem duas versões circulando. A original tem 93 minutos, mas o corte internacional mal chega a 80 minutos. Foi esta versão, dublada em inglês ainda por cima, que chegou às videolocadoras brasileiras pela Penta Vídeo. E eu só conhecia esta versão reduzida, mas ficava pensando o que haveria nos 13 minutos cortados, considerando que o filme, do jeito que está, já é um massacre. Felizmente, agora fui descobrir que os cortes são apenas de cenas "expositivas", que aprofundam a relação entre os personagens - e estas cenas cortadas não fazem qualquer diferença.

Do jeito que está, NO CORAÇÃO DO PERIGO é nitroglicerina pura: começa com um prólogo vapt-vupt explicando sobre o "Triângulo Dourado" que controla o tráfico de drogas entre Mianmar, Laos e Tailândia, e que seria responsável por 75% da distribuição de entorpecentes no mundo todo. Em seguida, ficamos sabendo que o governo tailandês contratou um grupo de destemidos mercenários para explodir o quartel-general dos traficantes e levar à justiça o principal cabeça da organização, o general Sampton. No momento seguinte, sem qualquer outra cena expositiva ou apresentação dos personagens, o filme corta diretamente para a ação, com o tal grupo de mercenários invadindo a base de Sampton e detonando uns 100 soldados inimigos - tudo isso só nos primeiros dez minutos!!!

O chefão do tráfico é levado pelos soldados, liderados pelo típico herói durão Chan Chung (Eddy Ko, visto recentemente em "Mad Detective", de Johnny To). Ele aceitou liderar a missão para poder mudar-se com o filho Sang para os Estados Unidos. O problema é que se a prisão de Sampton foi fácil, levá-lo até a fronteira do país para entregá-lo às autoridades não será tão simples: perseguidos pelos intermináveis homens do traficante, eles cruzam o país enfrentando inúmeros perigos e batalhas violentas.

A coisa piora quando, na fronteira com o Vietnã, eles compram uma briga que nem era deles ao resgatar uma jornalista francesa (Cécile Le Bailly) do estupro coletivo pelos homens liderados por um sádico e anônimo comandante (Ching-Ying Lam, ótimo). Durante o resgate, Chung acaba cegando o vilão, que então empreende uma caçada obsessiva aos mercenários, usando todo o exército do país e mais os reforços de uma tribo local, "convencida" à força a participar da perseguição. Some-se a eles os homens do traficante e dá para ter uma idéia da quantidade de problemas (e de inimigos) que os nossos heróis terão que enfrentar ao longo do resto do filme - principalmente porque o filho de Chung e sua cunhada passam a fazer parte da caravana fugitiva!


NO CORAÇÃO DO PERIGO praticamente não tem história, ainda mais nesta versão reduzida. É ação, ação e ação: um tiroteio leva ao outro, centenas de figurantes perdem a vida (imagine 15 tiroteios finais de "Comando Para Matar", e você terá uma idéia do massacre absurdo perpetrado neste filme...), e os comandados de Chung aos poucos vão perecendo pelo caminho, sempre da forma mais horrível e violenta, normalmente crivados por inúmeras rajadas de metralhadoras, embora uma das cenas mais violentas envolva um soldado atravessado por diversas lanças inimigas - o que me lembrou morte semelhante no espetacular "Conquista Sangrenta", de Paul Verhoeven.

Lá pela metade, há algumas tentativas de fazer humor que arrastam um pouco a narrativa (e soam deslocadas), principalmente uma envolvendo um mercenário viciado em jogos de azar. Claro que fica meio forçado imaginar que, com meio país atrás deles, o cara iria perder tanto tempo jogando dados! Mais adiante, o grupo chega à casa de um amigo de Chung dos tempos do Vietnã, um soldado norte-americano desertor (interpretado por Philippe Loffredo) que vive chapado (!!!), ransando com duas garotas (!!!) e permanentemente com um cinturão de explosivos amarrado ao tórax (!!!), para poder explodir seus inimigos a qualquer momento!!!

E é aí que se inicia uma das maiores matanças da história do cinema de ação... É tanto tiro e tanta morte que o espectador até começa a aceitar com naturalidade o fato de meia dúzia de caras conseguir exterminar centenas de inimigos sem muita dificuldade. Praticamente não há trilha sonora: rajadas de metralhadora e explosões são a única música ao longo dos 80 minutos de genocídio!

Numa história movida pela ação, escrita pelo próprio John Woo, os personagens quase nem têm nomes. É o caso do anônimo vilão que Chung cega com um tiro disparado através da mira telescópica da arma do sujeito (cena que seria "reaproveitada" por Spielberg em "O Resgate do Soldado Ryan"). Sem um olho e cego (literalmente) de fúria, o oficial passa o restante da história querendo o couro do herói, movido à morfina para amenizar as dores do ferimento.


E no meio deste inferno de balas e mortes, Woo ainda consegue espaço para mostrar a dramática relação entre o herói e seu filho pequeno, num toque que lembra o mangá "Lobo Solitário".

NO CORAÇÃO DO PERIGO é ação barulhenta, absurda e exagerada. Um filme de guerra feio, sujo e malvado que, se fosse filmado hoje, seria "Rambo 4". Um filme de macho onde as mulheres não têm vez nem voz, e só aparecem para serem estupradas ou servirem de alvo. Um filme onde morrem 100, 200, 300 inimigos, e aí você pára de contar porque ainda tem muito tempo pela frente. Um filme em que tiros de escopeta e de metralhadora de grosso calibre lançam os dublês vários metros longe, em que sangrentos buracos de bala explodem na roupa das vítimas, em que você quase sente a dor dos tiros, tal o realismo da coreografia da matança.

Um filme que encerra com uma luta brutal e de mãos limpas entre Chung e o comandante caolho, então já reduzidos a verdadeiras feras selvagens. Os dois trocam porradas entre escombros em chamas, de maneira tão convincente que os atores (e seus dublês) devem ter terminado a filmagem da cena repletos de hematomas da cabeça aos pés. Enfim, um filme que você jamais vai poder assistir com a sua namorada!


E se o próprio cineasta posteriormente filmaria uma história de guerra superior ("Bala na Cabeça", de 1990), é até bom ver esta para comparar com as produçõezinhas fru-frus que o homem dirige hoje nos Estados Unidos!

A verdade é que Woo nasceu para fazer estes filmes exagerados, repletos de tiros e explosões, com 300 mortes on-screen, e não coisas tipo "Missão Impossível 2" e "O Pagamento". Quando foi importado para os EUA, ele não soube se reciclar, e seus filmes da "fase Hollywoodiana", além de não trazerem nada de novo (sempre descambam para os tradicionais duelos em câmera lenta com duas pistolas nas mãos e pombas voando, o que acabou até se tornando uma piada), têm muito enfeite e pouquíssimo conteúdo.

Por isso, façam coro comigo: "Volta pra Hong-Kong, Woo!!!".

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Heroes Shed No Tears/Ying Xiong Wu Lei
(1986, Hong-Kong)

Direção: John Woo
Elenco: Eddy Ko, Ching-Ying Lam, Cécile Le
Bailly, Philippe Loffredo, Kuo Sheng, Chau
Sang Lau, Ho Kon Kim.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

HOLLYWOOD BOULEVARD (1976)


Com a câmera armada no tripé e pronta para filmar, um diretor de cinema orienta seus dois atores, que estão fora do quadro: "Bobbi, esta é sua grande cena. Sua fala é a mais importante, ela representa toda a essência do filme, entendeu? Então vamos lá: Ação!". A câmera começa a rodar e os atores - um homem e uma mulher completamente pelados! - finalmente entram no quadro, ela com um facão apontado para ele, ameaçando: "Get it up or I'll cut it off!" (Levanta esse troço ou eu corto fora!).

Só esta cena simbólica já dá uma idéia do que é HOLLYWOOD BOULEVARD, comédia de 1976 perdida nas poeiras do tempo, ao mesmo tempo uma homenagem e uma sátira irônica às pequenas produtoras que, com um mínimo de recursos e condições, rodavam exploitation movies baratíssimos, repletos de sexo e violência, para exibição em drive-ins na década de 70. "Homenagem" porque o filme inclui toneladas de referências a pessoas e produções da época (inclusive cenas de outros filmes, usadas na edição); "sátira irônica" porque a história é um retrato cômico, porém bastante fiel, do que fazia a própria produtora New World, de Roger Corman, que bancou esta comédia.


Escrito por Danny Opatoshu com o pseudônimo Patrick Hobby (ele depois escreveria o ainda mais alucinado e engraçado "Get Crazy"), HOLLYWOOD BOULEVARD foi a chance que o produtor Corman deu a dois jovens colaboradores da New World para que dirigissem seu primeiro filme, desde que o fizessem em tempo recorde (10 dias) e com um orçamento minúsculo até em comparação às produções baratas rodadas por Corman na época (custou 60 mil dólares).

Os jovens colaboradores, então completos desconhecidos, eram Allan Arkush ("Rock'n'Roll High School", "Get Crazy") e Joe Dante ("Piranha", "Gremlins"). E este primeiro trabalho está no nível do que ambos fariam depois: maluco e anárquico, porém nostálgico e respeitoso ao universo em que ambos se criaram, o dos filmes classe B.

A história começa com uma ingênua garota do interior, Candy Hope (a bela Candice Rialson), chegando a Hollywood com o objetivo de tornar-se estrela de cinema. Mas ela não consegue emprego nos estúdios por ser inexperiente na área. Após participar, sem querer, de um assalto a banco, ela acaba se associando a um agente picareta chamado Walter Paisley (o eterno coadjuvante Dick Miller, aqui em raro papel principal), e, através dele, vai parar nas produções baratas da Miracle Pictures (cujo slogan é: "Se é um bom filme, é um Milagre"!!!).


Sempre sob a direção do excêntrico cineasta Erich Von Leppe (Paul Bartel, ele próprio um cineasta cult na época!), Candy acaba estrelando exploitation movies como "Machete Maidens of Mora Tau" (rodado nas Filipinas!!!) e "Atomic War Brides", que começa como um roteiro de aventura nos anos 50 e se torna ficção científica pós-apocalíptica no decorrer das filmagens!!!

Há ainda um mistério a resolver: várias atrizes da Miracle Pictures andam morrendo misteriosamente em "acidentes", como pára-quedas que não abrem e tiros de verdade disparados pelas armas de figurantes (cena que antecedeu em duas décadas a morte real do ator Brandon Lee no filme "O Corvo"). Quem será o misterioso assassino? O diretor Von Leppe? A estrela ciumenta da produtora, Mary McQueen (interpretada pela musa de Bartel, Mary Woronov)? O roteirista frustrado Patrick (Jeffrey Kramer)? Ou o produtor P.G. (Richard Doran), que costuma selecionar suas atrizes transando com elas na traseira de uma van?

O roteiro de HOLLYWOOD BOULEVARD é o que menos interessa, já que o filme na verdade é uma seqüência caótica e não-linear de piadas/homenagens ao mundo do cinema, que inclusive pode ser vista como se fossem quadros isolados, estilo "Amazonas na Lua".


Fãs de cinema em geral vão se divertir muito: a citação já começa com o título, uma brincadeira com o clássico "Crepúsculo dos Deuses" (no original, "Sunset Boulevard"). Já as tralhas da Miracle Pictures mostram cenas retiradas de "clássicos" reais da New World, como "Ano 2000 - Corrida da Morte", "The Big Bird Cage", "Sombras do Terror" e "Big Bad Mama".

O Von Leppe de Bartel (que parece estar interpretando ele mesmo) é a síntese dos cineastas exploitation. Nas filmagens nas Filipinas, ele explica às suas atrizes, vestidas com enormes decotes e portando metralhadoras: "Sua motivação é... massacrar 3.000 soldados asiáticos!", e na cena seguinte vemos as moças metralhando indiscriminadamente multidões de figurantes filipinos (em cenas tiradas de "The Big Bird Cage" e "The Big Doll House", ambos produzidos por Corman e dirigidos por Jack Hill nas Filipinas).

O mesmo Von Leppe tenta convencer Candy que uma cena sensacionalista de estupro coletivo por nativos filipinos é "o sonho de toda atriz", e não perde a pose nem quando os figurantes levam a coisa a sério demais e se recusam a atender a ordem de "corta!" do diretor!

Mais adiante, durante as filmagens de "Atomic War Brides", aparecem cenas, carros e figurinos de "Ano 2000 - Corrida da Morte", que o próprio Bartel havia dirigido em 1975 com David Carradine e Sylvester Stallone. A cena em que figurantes usam qualquer fantasia existente no depósito da produtora para criar "mutações pós-apocalípticas" é hilária, e lembra muito filme bagaceiro onde isso foi feito de verdade. Quando uma atriz reclama que uma das "mutações" não passa de um figurante com uma máscara de gorila, o produtor P.G. simplesmente coloca um capacete de astronauta na cabeça do figurante, dizendo: "Agora é uma mutação simiesca". Trata-se, claro, uma homenagem ao ridículo "Robot Monster", dos anos 50, onde o grande vilão era um gorila com um escafandro na cabeça!


Há toneladas de outras referências ao cinema barato daquela época: quando Candy, Walter e Patrick vão à pré-estréia de "Machete Maidens of Mora Tau" (num drive-in!!!), outros dois filmes são exibidos, "Zombie in the Attic" e "Moonmen from Mars" (!!!), o primeiro aproveitando cenas com Boris Karloff retiradas de "Sombras do Terror", e o segundo mostrando um ridículo e sangrento duelo entre monstros bagaceiros (asquerosamente semelhantes a um pênis e uma vagina), tirado de "Battle Beyond the Sun", ambos também produzidos por Corman.

E mais: Dick Miller interpretou um personagem chamado "Walter Paisley" em "A Bucket of Blood" (dirigido por Roger Corman em 1959), e uma sangrenta cena de assassinato a punhaladas foi dirigida por Joe Dante com inspiração confessa nos filmes do italiano Mario Bava! De tão violenta, a tal cena de esfaqueamento acabou sendo utilizada em outros filmes produzidos pela New World (posteriormente rebatizada Concorde), como "The Slumber Party Massacre" e "Vampiro das Estrelas".

Quem não é do ramo também pode se divertir com HOLLYWOOD BOULEVARD, mesmo sem pegar estas citações todas. Não tem como não rir imaginando que muitos filmes classe B da época (principalmente os da New World) realmente eram realizados da mesma forma que as produções da Miracle Pictures, e sempre estrelados por garotas ingênuas que não tinham vergonha de tirar a roupa diante das câmeras sonhando se tornar grandes estrelas de cinema.

Uma ótima cena mostra Candy e duas outras atrizes (interpretadas pelas gatas Rita George e Tara Strohmeier) revoltando-se quando um dos membros da equipe de filmagens vai espiá-las tomando banho de sol de topless - e isso que elas ficaram completamente nuas durante a maior parte das cenas gravadas momentos antes. "Se quer ver nossos peitos, vai ter que pagar a entrada!", reclama uma delas. Como todo bom filme sobre o universo exploitation, HOLLYWOOD BOULEVARD também está repleto de cenas gratuitas de nudez e violência!

Para tornar ainda mais saborosa a brincadeira, o elenco tem diversas caras conhecidas em pequenas participações. Além de todos os já citados, o diretor Joe Dante aparece como figurante numa festa chique de Hollywood, ao lado de Forrest J. Ackerman (editor da antológica revista Famous Monsters of Filmland), do roteirista Opatoshu, do futuro diretor Lewis Teague (de "Alligator" e "Olhos de Gato") e até do robô Robby, do clássico sci-fi "Forbidden Planet"!!!


Também surgem, em pequenas participações, os cineastas Allan Arkush, como um xerife; Jonathan Kaplan ("Acusados"), como o diretor de produção da Miracle Pictures, e Jonathan Demme ("O Silêncio dos Inocentes"), vestindo uma fantasia de Godzilla!!! Só estas participações já fazem de HOLLYWOOD BOULEVARD um autêntico FILMES PARA DOIDOS!

O mais irônico é que tanto Dante quanto Arkush se dedicaram de corpo e alma à produção desta sua primeira obra por pensarem que não teriam outras chances no cinema! Sorte que esta previsão pessimista não se tornou realidade: um logo saltou para os blockbusters, mas mantendo aquele climão de classe B das produções que dirigiu para Roger Corman ("Gremlins", por exemplo, é um típico filme B com orçamento classe A, e tem até Dick Miller no elenco!); o outro teve tempo de fazer uma das melhores comédias dos anos 80, "Get Crazy", antes de cair no limbo dos produtores de filmes para a TV...

PS 1: Infelizmente, HOLLYWOOD BOULEVARD ficou tão obscuro com o tempo que não há vídeos do filme no YouTube, apenas este divertido clip da música "Everybody's Doing It", por Commander Cody and his Lost Planet Airmen, que invade uma cena de romance da película. Como a música é divertida (e a interpretação da banda idem), fica como aperitivo para entrar no clima do filme.

PS 2: Várias piadas acabaram sendo reaproveitadas em outros filmes. É o caso de "Amazonas na Lua", co-dirigido por Joe Dante, onde aparece um exploitation movie produzido pela "Miracle Pictures", inclusive com a reprodução do já clássico slogan "Se é um bom filme, é um Milagre".

PS 3: Em 1988, Corman produziu e Steve Barnett dirigiu "Hollywood Boulevard 2", lançado em vídeo no Brasil como "Um Filme Muito Louco". Apesar do título original, é um remake, e não seqüência, do filme de 76. No elenco, as atrizes pornô Ginger Lynne e Tracy Lords.

Videoclip de "Everybody's Doing It"



Joe Dante fala sobre HOLLYWOOD BOULEVARD



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Hollywood Boulevard (1976, EUA)
Direção: Joe Dante e Allan Arkush
Elenco: Candice Rialson, Mary Woronov, Paul
Bartel, Rita George, Jeffrey Kramer, Dick Miller,
Richard Doran e Tara Strohmeier.

sábado, 13 de dezembro de 2008

99 AND 44/100% DEAD (1974)


99 AND 44/100% DEAD é uma daquelas obras anos à frente do seu tempo. Quando foi lançado, em 1974, o filme foi massacrado pela crítica e ignorado pelo público, tornando-se um fiasco de bilheteria e uma mancha na carreira promissora do diretor John Frankenheimer, que só se recuperou do desastre ao concordar em dirigir a seqüência "Operação França 2", no ano seguinte. E não é difícil de entender o espanto de público e crítica: escrito por Robert Dillon (roteirista do excêntrico "A Marca da Brutalidade", com Lee Marvin), é um filme policial narrado em ritmo de paródia, às vezes sério e sombrio, às vezes cômico e absurdo como uma boa história em quadrinhos.

Seus protagonistas são gângsters durões, porém simpáticos, que pensam que atirar desafetos no rio com blocos de concreto nos pés é um trabalho como qualquer outro, e que adoram falar bobagem entre um tiroteio e outro. Enfim, é a idéia básica de "Pulp Fiction", só que 20 anos antes. Mais ou menos como no premiado filme de Tarantino, aqui também temos uma visão cartunesca, caricatural, sobre o mundo do crime. Visão esta que antecede em pelo menos duas décadas o trabalho de Tarantino, Guy Ritchie, Joe Carnahan e outros cineastas contemporâneos que fazem a mesma coisa. Em outras palavras, é um filme incompreendido, que certamente faria o maior sucesso se fosse lançado hoje.


Frankenheimer não é um dos meus diretores prediletos (embora tenha assinado alguns filmaços), e eu confesso que não conheço boa parte da sua filmografia. No caso específico deste filme, nunca encontrei referências que me deixassem curioso para vê-lo, até ler um breve comentário no blog Viver e Morrer no Cinema, do Leandro Caraça, falando justamente sobre a dificuldade para obter uma cópia. Aí resolvi ir atrás, e quem me conseguiu a cópia VHS-Ripada foi o Zebu, do finado blog Boizeblog, pois até na rede é difícil de encontrar o filme para baixar!!!

Enfim, agora, depois de finalmente conferir o polêmico trabalho de Frankenheimer, fico imaginando como os espectadores lá dos anos 70, acostumados a filmes policiais mais sérios e violentos, encararam 99 AND 44/100% DEAD...

A relação com os quadrinhos começa já pelo pôster de cinema, que traz uma artezinha estilizada e a frase de duplo sentido "Todos estão morrendo para conhecer Harry Crown", e segue pelos créditos de abertura, mostrados através de animações com bonequinhos coloridos (cuja arte lembra o trabalho do brasileiro Ziraldo). Em seguida, o espectador é surpreendido com uma introdução maluca que mostra uma dupla de gângsters jogando um inimigo no rio com os pés presos a um bloco de cimento. O homem afunda feito chumbo e, ao atingir o fundo do rio, a câmera mostra dezenas de outros cadáveres na mesma situação, alguns já transformados em esqueletos, ao som de uma musiquinha em tom cômico composta por Henry Mancini, que transforma aquela visão mórbida em piada!


O filme não demora a situar o espectador no universo fantasioso da sua narrativa: há uma grande cidade (não-identificada) sendo disputada pelos chefões de duas quadrilhas rivais, a do "Uncle" Frank Kelly (Edmond O'Brien) e a do jovem e arrogante Big Eddie (Bradford Dillman). Um anda invadindo os negócios do outro, e o conflito entre ambos está se transformando num banho de sangue, com alta contagem de cadáveres. Até que Kelly resolve contratar os serviços de um famoso pistoleiro, Harry Crown (interpretado por Richard Harris, com um corte de cabelo que lembra Michael Caine em "Carter - O Vingador"), para botar ordem na casa.

Crown chega à cidade, reencontra um velho amor, Buffy (Ann Turkel), e logo descobre que a quadrilha de Big Eddie também contratou reforços; neste caso, o matador Marvin "Claw" Zuckerman (Chuck Connors!!!), que, como o nome já diz, tem um gancho numa das mãos - que foi decepada pelo próprio Crown em outra oportunidade, tornando o duelo entre os dois pistoleiros bastante, digamos, "pessoal".

Feitas as apresentações dos personagens, e de quem joga para o lado de quem, pode esquecer qualquer tentativa de acompanhar um roteiro plausível: 99 AND 44/100% DEAD transforma-se num longo conflito entre os gângsters, sem muita história para contar, até chegar ao barulhento tiroteio final. É quase como uma versão adulta de um desenho tipo o do Tom & Jerry - o que fica ainda mais evidente na cena em que um capanga de Big Eddie surge com uma ridícula banana de dinamite fumegante muito parecida com aquelas produzidas pelas "Indústria Acme".


O que se percebe é que, nesta mistura debochada de gêneros e estilos, todos, do diretor aos atores, parecem estar se divertindo horrores. Nunca me esqueço de que tinha um amigo dono de videolocadora que não sabia em qual prateleira guardar a fita do "Pulp Fiction": comédia, policial, drama ou aventura? Ele enfrentaria o mesmo problema com 99 AND 44/100% DEAD: não tem como chegar a um consenso sobre o gênero do filme, que às vezes é comédia (regada a muito humor negro, claro), às vezes é policial sério (com perseguições de carro, tiroteios, emboscadas), e às vezes, ainda, é simplesmente uma bobagem sem pé nem cabeça.

Claro, o mais importante é não levar o filme a sério, como fizeram os críticos e espectadores lá nos anos 70. Afinal, esta é a história de um pistoleiro chamado Harry Crown que usa uns óculos ridículos que lhe dão um ar constrangedor de CDF, mas, sempre que os tira do rosto, é porque vai fuzilar ou quebrar a cara de alguém - e passa de bobão a durão em questão de segundos, graças à ótima interpretação do falecido Richard Harris.

O mesmo Harry Crown anda sempre com duas pistolas automáticas que têm desenhos de flores gravados nas coronhas (!!!), namora uma garota que de dia é professora, e de noite é stripper (!!!), e adota como ajudante um garoto inexperiente que é capanga de "Uncle" Frank. E se o "mocinho" já é fora do convencional, o que dizer do "vilão de filme do 007" personificado por Chuck Connors, que tem diferentes próteses para encaixar na mão que lhe falta, de tesouras e ganchos a saca-rolhas (!!!) e chicotes?


Novamente, fico imaginando os espectadores lá dos anos 70 vendo esse filme esquisitíssimo, principalmente uma cena que se inscreve nos anais do absurdo: Crown foge em disparada pela rua sendo alvejado pelos disparos de um assassino com um rifle de mira telescópica, posicionado no topo de um prédio; finalmente, o herói busca abrigo atrás do carro blindado do seu contratante, Kelly, e, enquanto as balas do "sniper" ricocheteiam na blindagem do veículo, os dois começam a papear normalmente como se nada estivesse acontecendo!

Por essas e por outras, 99 AND 44/100% DEAD definitivamente é um filme que se passa no universo dos quadrinhos ou desenhos animados, e não no mundo real. É um universo absurdo em que dezenas de cadáveres são afundados por gângsters no rio e nunca localizados pela polícia (que, aliás, nunca dá as caras em momento algum da trama); em que há crocodilos nos esgotos (!!!), e ninguém parece estranhar o fato; enfim, um mundo maluco em que todos os gângsters estão o tempo inteiro vestidos com ternos pretos e chapéus, sempre padronizados, como se fossem inimigos de algum antigo jogo de videogame!

Há um charme em toda esta balbúrdia, mas claro que não é para todos os gostos. Trata-se de um autêntico FILME PARA DOIDOS, com um tom estranho de humor negro e um olhar caricatural do mundo dos gângsters, o que, aliás, levou muitos críticos da época a condenarem o diretor Frankenheimer, taxando-o de "sádico" por brincadeiras como a dos cadáveres no fundo do rio - imagine agora o que esse mesmo pessoal diria após assistir "Pulp Fiction" ou "Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes"!!! E isso que o filme de Frankenheimer nem é exatamente violento: apesar dos diversos tiroteios, não se vê uma única gota de sangue.


É uma pena que o fracasso de público e crítica tenha condenado 99 AND 44/100% DEAD a desaparecer na obscuridade. Até hoje, o filme permanece inédito no Brasil, e nos EUA só foi lançado em VHS (nada de uma segunda chance em DVD por enquanto). Continua, também, como uma mancha no currículo de Frankenheimer, sendo dificilmente citado em biografias e perfis do diretor (que, ironicamente, não deixam de fora os filmes verdadeiramente ruins assinados pelo cineasta, como "A Semente do Diabo" e "Amazônia em Chamas").

Talvez ainda demore um pouco, mas tenho certeza que 99 AND 44/100% DEAD um dia vai receber sua merecida segunda chance como o filme divertido que é, especialmente agora que público e crítica já estão mais acostumados com extravagências como esta. E é óbvio que os "novatos" Tarantino, Ritchie e Carnahan teriam muito a aprender com esta pérola esquecida - embora às vezes já pareçam estar copiando-a descaradamente!

PS: Não tente entender o título, que é tão inexplicável quanto o próprio filme. Trata-se de uma brincadeira intraduzível com uma marca de sabonete da época, que anunciava "99 - 44/100% Puro".

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99 and 44/100% Dead (1974, EUA)
Direção: John Frankenheimer
Elenco: Richard Harris, Chuck Connors, Ann
Turkel, Edmond O'Brien, Bradford Dillman, David
Hall, Constance Ford e Karl Lukas.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

THE BIG RACKET (1976)


Se tivesse Clint Eastwood no papel principal, THE BIG RACKET (inédito no Brasil; traduzido literalmente, o título ficaria "O Grande Golpe" ou "O Grande Crime") poderia muito bem passar por "prequel" do clássico "Perseguidor Implacável", dirigido por Don Siegel em 1971, e que trazia Eastwood no papel do violento policial Dirty Harry. Enquanto o filme de Siegel já começava com Harry mostrando métodos pouco ortodoxos de combate ao crime e uma total falta de confiança na justiça convencional, THE BIG RACKET explica como um policial correto, determinado e honesto acaba se transformando numa versão macarrônica de Dirty Harry ao encontrar bandidos que usam as brechas da justiça para escaparem do merecido castigo.

Dirigido por Enzo G. Castellari em 1976, na esteira do sucesso de policiais violentos como "Operação França", o próprio "Perseguidor Implacável" e "Desejo de Matar", este ainda obscuro filme de ação italiano mostra porque não é nenhum pecado dizer que Castellari, um dos meus diretores preferidos, é a versão italiana do norte-americano Sam Peckinpah: com apurada técnica e muito estilo, Enzo dirige as (muitas) cenas de ação da obra como se estivesse coreografando um número de ballet clássico, usando e abusando de violentos e estilizados tiroteios, toneladas de slow-motion (a popular câmera lenta) e criativos movimentos e trucagens de câmera (como aquela que acompanha o personagem principal dentro de um carro capotando).

O policial correto, determinado e honesto da vez é o inspetor Nico Palmieri (interpretado pelo sempre simpático Fabio Testi). Junto com o parceiro e amigão Salvatore (Sal Borgese), Palmieri está caçando obsessivamente uma gangue de arruaceiros que usa violência e vandalismo para convencer comerciantes de Roma a pagarem por "proteção", como faziam os mafiosos dos anos 20-30. A seqüência de créditos iniciais inclusive mostra diferentes ações dos bandidos, destruindo mercadorias e arrebentando vitrines, sempre em câmera lenta.

Crimes em slow motion



Certo dia, enquanto segue a quadrilha de carro, o inspetor descobre que o problema é maior do que aparenta: os arruaceiros na verdade integram um grande esquema de pilantragem (o "racket" do título original), que pretende ampliar seus "serviços" para o país inteiro, unindo todas as famílias mafiosas italianas sob o comando de um misterioso gângster inglês (Joshua Sinclair). O bandidão pretende centralizar todas as atividades ilegais de Roma sob seu comando, mais ou menos como o Rei do Crime dos quadrinhos da Marvel.

Quando Palmieri é pego no flagra bisbilhotando, os implacáveis integrantes da quadrilha nem se importam com o fato de ele ser policial: simplesmente rolam seu carro até que despenque de uma colina (o próprio Testi protagoniza a arriscada cena, filmada com a câmera dentro do carro enquanto o veículo rola ladeira abaixo, fazendo com que o ator receba uma chuva de vidro moído!).

Nosso herói passa uns dias se recuperando no hospital, e quando sai intensifica sua ação sobre a quadrilha. Mas suas tentativas de botar os bandidos atrás das grades sempre esbarram na Justiça, já que os marginais são espertos o suficiente para usar as brechas das leis ao seu favor - chega a ser revoltante o fato de um batalhão de advogados sempre conseguir tirar os sujeitos da cadeia, mais ou menos como acontece até hoje no Brasil. Pior: quando Luigi (Renzo Palmer), um dos comerciantes agredidos por membros do "racket", finalmente aceita testemunhar contra a quadrilha, os bandidos seqüestram e estupram sua filha de 15 anos, que morre após a agressão.

E Palmieri vai agüentando tudo no osso, tentando fazer a coisa da forma certa, dentro da lei. Ele até coloca um informante no mundo do crime, um velho batedor de carteiras chamado Pepe (o norte-americano Vincent Gardenia), para tentar prever os passos do "racket". Mas fica sempre de mãos amarradas para agir. Até que Salvatore é friamente executado pelos bandidos com tiros de metralhadora.

Afastado da delegacia pelos seus superiores, já que estava "fechando um olho" para os roubos do seu informante Pepe, Palmieri resolve que vai acabar com a quadrilha à sua maneira. E, como se trata de um filme de Castellari, já sabemos qual é esta "maneira": sangrentos tiroteios em câmera lenta. Não é por nada que a frase do cartaz de cinema é: "Alguém vai ter que pagar!"...

O diferencial de THE BIG RACKET em comparação a outros filmes com policiais durões da época de ouro dos poliziotteschi é que Nico Palmieri não aparece como o exército de um homem só, tão bem representado em outras produções por atores como Franco Nero e Maurizio Merli. Assim, para eliminar o "racket", que é formado por dezenas de marginais, o herói resolve recrutar vítimas da quadrilha que também perderam algo valioso por causa dos bandidos, como sua ex-testemunha Luigi, o bandido Pepe e Giovanni (Orso Maria Gerrini), um atirador olímpico que teve a esposa estuprada e queimada viva pelos criminosos, entre outros, numa espécie de mistura de "Os Doze Condenados" com "Desejo de Matar". Juntos e com armamento pesado, eles partem para um último confronto com o "racket".

Mas o Homem de Ferro não era o Robert Downey Jr.?



Em filmes de vingança, como este, a hora de dar o troco sempre é doce, para os personagens e para o espectador. Mas poucas vezes eu torci tanto pela morte dos antagonistas quanto neste filme. Os marginais do roteiro de Castellari, Massimo De Rita e Arduino Maiuri são um rascunho dos demônios do inferno. Além do cinismo com que cobram a proteção ("É como se você estivesse pagando taxas", minimiza um deles, ao ameaçar um comerciante), os bandidos são tão frios e sádicos que chega a dar nojo, como na cena em que um dos capangas mija sobre o corpo nu de uma mulher que acabou de estuprar, diante do olhar do marido atacado. Mais adiante, o chefão do "racket" orienta seus comandados que, se alguém não quiser pagar a proteção, basta matar um filho ou uma filha e ninguém mais irá se rebelar, isso com a maior frieza e naturalidade do mundo!

E como o roteiro deixa seus pobres heróis (incluindo Palmieri) com as mãos amarradas o tempo todo, chega a ser um alívio quando eles finalmente resolvem partir para o contra-ataque, com direito a quase pornográficas cenas em slow-motion dos bandidos sendo alvejados com tiros de grosso calibre (Peckinpah ficaria orgulhoso de ver o estilo que ele ajudou a popularizar atingindo a perfeição). E cada bandido que cai crivado de chumbo é um sorriso de satisfação a mais para o espectador!

Além do mérito de criar uma narrativa mais realista e pé no chão do que outros poliziotteschi do período, sem apelar para heroísmos exagerados dos protagonistas, THE BIG RACKET também tem o mérito de não negar fogo no quesito ação, com inúmeros tiroteios e pancadarias na narrativa. O único ponto fraco, pelo menos na minha opinião, é a desajeitada tentativa de incluir algumas cenas de artes marciais na narrativa (Nico e Salvatore ensaiam uns golpes contra os bandidos em duas cenas), talvez visando o público que curtia as produções de ação made in Hong-Kong. Mas a coreografia não convence (os atores ficam "duros" dando os golpes nitidamente ensaiados), e Fabio Testi parece um peixe fora d’água lutando kung-fu.

Outro ponto fraco é uma desnecessária revelação final sobre um segundo chefão do "racket", e que estaria envolvido diretamente com a polícia, mas que não faz muita diferença àquela altura do campeonato.

Fora isso, THE BIG RACKET é recomendadíssimo e um dos grandes filmes dos gêneros "vingança" e "men on a mission" já produzidos, de deixar envergonhados os responsáveis por recentes aventuras absurdas na mesma linha, como o exagerado e inverossímil "Sentença de Morte", com Kevin Bacon, que meio-mundo babou ovo. E como uma imagem vale mais que mil palavras, vou ficando por aqui, pois estes vídeos do YouTube que postei já são uma referência bem melhor que qualquer resenha minha.

Para quem não conhece o cinema de Castellari e quer um referencial, aqui está um dos seus filmes mais perfeitos e bem produzidos, antes que ele se entregasse à loucura das aventuras absurdas de baixo orçamento, tipo "Fuga do Bronx" e "Guerreiros do Futuro". Praticamente um western moderno, que Sam Peckinpah aplaudiria de pé.

Trailer de THE BIG RACKET



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Il Grande Racket (1976, Itália)
Direção: Enzo G. Castellari
Elenco: Fabio Testi, Vincent Gardenia, Renzo
Palmer, Orso Maria Guerrini, Romano Puppo,
Joshua Sinclair e Sal Borgese.

domingo, 7 de dezembro de 2008

TROVÃO AZUL (1983)


É a típica historinha policial de sempre: uma dupla de homens da lei (um deles veterano e estressado, o outro jovem e inexperiente) topa acidentalmente com uma daquelas poderosas conspirações envolvendo altos escalões do governo e do exército, sendo perseguidos pelos caras maus, que querem impedi-los de divulgar as provas do complô.

A grande diferença de TROVÃO AZUL, dirigido em 1983 por John Badham, para outros filmes que contam esta mesma historinha policial de sempre é que aqui heróis e vilões usam modernos helicópteros armados até os dentes, e as perseguições são pelos céus de Los Angeles, e não em carros velozes pelas ruas, como é comum.


TROVÃO AZUL também é um dos meus "filmes da infância", que eu adorava quando guri, e foi ótimo revê-lo agora, num DVD-Rip, para descobrir que ele continua tão bom e interessante quando da primeira vez que o vi, numa das incontáveis reprises pelo SBT (que por sinal nunca mais exibiu estes filmes antigos do seu acervo).

Lembro que, quando era criança, também havia um seriado de TV com o mesmo nome, certamente surgido após o filme, mas nunca assisti e por isso não posso julgar (acabo de conferir no IMDB que um dos protagonistas da série era ninguém menos que Dana Carvey, o Garth de "Wayne's World"!!!). Curiosamente, o mesmo IMDB diz que TROVÃO AZUL foi um inesperado fracasso de bilheteria na época do seu lançamento.


Quem também é desta época deve lembrar que houve um pequeno ciclo de "filmes aéreos", principalmente sobre pilotos de caças, provavelmente por causa do sucesso do intragável "Top Gun - Ases Indomáveis", aquele estrelado por um jovem Tom Cruise. Eu nunca gostei desses filmes, mas meu irmão do meio adorava aviões, caças, helicópteros e o escambau (coisa de criança, já que ele nunca virou piloto nem nada disso). E foi meio por causa dele que vi TROVÃO AZUL: ele gravou o filme do SBT e assistia um milhão de vezes por semana.

A diferença desta para outras produções "aéreas" é que aqui existe uma história interessante como pano de fundo para as cenas de ação, e estas também são boas e bem filmadas. A maioria dos filmes com caças dos anos 80 só se preocupavam em mostrar os aviões voando e jogando mísseis, e olhe lá.

Já este filme de John Badham, escrito por Dan O'Bannon (diretor de "A Volta dos Mortos-vivos"), Don Jakoby (roteirista do clássico "Desejo de Matar 3") e Dean Riesner (roteirista de "Perseguidor Implacável"), mostra o dia-a-dia da divisão aérea da polícia de Los Angeles, que vigia os céus da metrópole com helicópteros na tentativa de impedir crimes em andamento e auxiliar no trabalho dos policiais terrestres.


Na verdade, é um trabalho bem bundão: os pilotos ficam sobrevoando a cidade, avisando a delegacia por rádio quando avistam ações ou veículos suspeitos, e iluminando com holofote os bandidos em fuga, para facilitar sua perseguição pelos policiais em terra. Um pé no saco para quem pensava que os pilotos tinham permissão de voar metralhando ou disparando mísseis na bandidada, né?

Para compensar, pelo menos, eles podem utilizar os helicópteros policiais para atitudes bem menos nobres que "manter a lei e a ordem", como espiar uma bela garota que pratica yoga completamente nua em sua casa!


O principal policial-piloto da divisão é o oficial Frank Murphy (o saudoso Roy Scheider), veterano do Vietnã que está estressado e à beira de um ataque de nervos. As coisas não melhoram nada quando ele recebe um novo parceiro, Richard Lymangood (um jovem Daniel Stern), e nem com a pressão do seu chefe, o capitão Jack Braddock (último filme de Warren Oates, que morreu após as filmagens).

Certo dia, Braddock convida Murphy para acompanhar a demonstração de um novo brinquedinho do exército, o Trovão Azul. Trata-se de um helicóptero modificado e dotado da mais alta tecnologia: além de metralhadoras movidas por um sensor no capacete do piloto ("Elas atiram para onde você está olhando", explica um dos personagens) e mísseis, o helicóptero tem visor infra-vermelho, computador de bordo conectado com os arquivos da polícia e até câmera e microfone de alta potência, além, claro, de um visual estiloso. Tudo para supostamente deter possíveis atentados terroristas.


A demonstração dos benefícios da aeronave é feita pelo arrogante coronel Cochrane (Malcolm McDowell, porra!!!), que tem uma longa rusga com Murphy, ainda dos tempos do Vietnã. E o próprio Murphy é escolhido para realizar alguns vôos experimentais com o Trovão Azul

É quando, por acidente, ele e Lymangood sobrevoam um edifício governamental e descobrem que agentes de alto escalão estão envolvidos no assassinato de uma importante defensora dos direitos humanos, e que o Trovão Azul será usado como arma - o coronel Cochrane, claro, é um dos conspiradores.

A dupla de policiais grava áudio e vídeo da reunião como evidência, e então são perseguidos pelos vilões. Quando Lymangood é brutalmente assassinado, Murphy rouba o Trovão Azul e dá início a uma longa e emocionante perseguição aérea, que corresponde à meia hora final do filme.


Eu vi um documentário há algum tempo falando sobre a dificuldade de utilizar helicópteros em filmes, e como são comuns as tragédias em sets de filmagens, inclusive matando atores (isso aconteceu, por exemplo, em "No Limite da Realidade", "Comando Delta 2" e "Keruak - O Exterminador de Aço", entre outros títulos). Por isso, não tem como não achar menos que incríveis as acrobacias realizadas pelas aeronaves na parte final de TROVÃO AZUL, sem a praga da computação gráfica que infesta a maioria das produções recentes.

O clímax mostra Murphy sendo perseguido no ar pelo seu desafeto Cochrane, pilotando outro moderno helicóptero de guerra, e ambos trocam rajadas de metralhadoras e mísseis sem se preocupar com a segurança das pessoas em edifícios próximos do "campo de batalha".


Aliás, o filme não mostra baixas civis, mas elas se tornam evidentes pela dimensão da destruição provocada durante a perseguição ao Trovão Azul: quando um caça é abatido por Murphy, por exemplo, o piloto consegue se ejetar, mas não tem como não pensar que a aeronave em chamas deve ter caído bem no meio de Los Angeles!!!

É interessante constatar que Frank Murphy não é um herói perfeitinho como é comum no gênero. Ele é apresentado desde o início como um homem literalmente à beira de um ataque de nervos, dominado por seus traumas dos tempos do Vietnã e obcecado por um velho relógio digital que conta os segundos na forma de um círculo que vai se apagando (outra coisa típica dos anos 80). Também vive entre tapas e beijos com a companheira Kate (Candy Clark).

Talvez tudo isso tenha a ver com a primeira versão do roteiro, que era mais puxada para o suspense: mostrava um piloto tendo um surto psicótico e roubando o Trovão Azul para aterrorizar Los Angeles, sendo então combatido pela polícia. Só que os produtores acharam o tom muito pessimista e mandaram reescrever tudo.


TROVÃO AZUL ainda traz uma boa química entre Scheider e Stern como parceiros de vôo - a cena dos dois bancando os voyeurs para espiar a peladona fazendo yoga é muito engraçada. Mas, claro, o melhor do filme é o duelo de nervos entre o herói e o vilão interpretado por McDowell, que na época ainda não havia afundado sua carreira como protagonista de produções classe Z, e aqui dá certo charme ao psicótico coronel Cochrane - impagável a cena em que Murphy debocha do tradicional sotaque inglês de seu desafeto.

Destaque também para a ótima trilha sonora de Arthur Rubinstein, a única coisa do filme de que eu me lembrava desde que o vi na infância!

E eu continuo não gostando dessas produções com aeronaves e duelos aéreos. Mas TROVÃO AZUL se mantém como uma ótima exceção no gênero, e hoje é um filme injustamente desconhecido e que merecia uma segunda chance. Até porque não é sempre que você vê uma chuva de frangos assados no centro de Los Angeles (!!!), provocada pela explosão de um restaurante pelo míssil disparado por um caça! E sem CGI!

Trailer de TROVÃO AZUL



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Blue Thunder (1983, EUA)
Direção: John Badham
Elenco: Roy Scheider, Malcolm McDowell,
Candy Clark, Daniel Stern, Warren Oates,
Paul Roebling e David Sheiner.